A definição para os anabolizantes usados atualmente de forma indiscriminada é "Esteroides Anabolizantes Androgênicos" (EAA) - em inglês Anabolic–androgenic steroids (AAS) ou, mais amplamente, "Drogas para Melhoria de Performance e Imagem" (PIEDs - Performance and Image Enhancing Drugs).
Esteroides Anabolizantes Androgênicos (EAA)
Os EAA são uma classe de hormônios que incluem a testosterona endógena e derivados sintéticos que possuem propriedades tanto anabólicas (construção de tecido muscular) quanto androgênicas (desenvolvimento de características sexuais masculinas).
Os EAA são classificados com base em modificações estruturais da molécula de testosterona que que modificam sua meia-vida, biodisponibilidade, via de administração e perfil de toxicidade.
Características moleculares:
- Derivados sintéticos do hormônio masculino testosterona
- Moléculas lipofílicas que atravessam membranas celulares
- Ligam-se a receptores androgênicos intracelulares
- Promovem transcrição de DNA e síntese proteica
Drogas para Melhoria de Performance e Imagem" (PIEDs - um termo geral que engloba uma variedade de produtos incluindo esteroides anabolizantes, estimulantes, hormônios de crescimento e outras drogas que alteram as funções corporais para aumentar massa muscular, reduzir gordura corporal e promover perda de peso.
Problema de qualidade: Composição, dosagem, miscelânea.
Estudo clínico avaliando PIEDs confiscados na Itália no período de 2017-2019, com análise de mais de 400 produtos revelou:
- 15% tinham composição completamente diferente da declarada no rótulo
- 10% apresentavam contaminação cruzada com outras drogas (principalmente ésteres de testosterona)
- 11% não tinham rótulo (composição desconhecida)
- Frequentemente continham misturas de múltiplas substâncias
No Brasil, a comercialização e a prescrição de esteroides anabolizantes são rigorosamente controladas pela ANVISA. Desde abril de 2023, a resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhoria de desempenho esportivo. A venda clandestina ou a prescrição irregular dessas substâncias são consideradas crimes, com penas comparadas às do tráfico de drogas.
O Código de Conduta Ética do Comitê Olímpico Brasileiro também proíbe o uso de terapias para melhoria do desempenho físico na prática esportiva, embora existam relatos do uso de esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento em jovens atletas, mesmo em categorias de base.
Apesar de proibidos, o uso de hormônios esteroides segue sendo uma prática, bem como a proliferação no Brasil de cursos de extensão, educação continuada e pós-graduação sobre terapias hormonais voltadas à estética e ganho de massa para desempenho esportivo com objetivos meramente comerciais.
Inúmeras e robustas evidências enfatizam os riscos potenciais na administração de doses inadequadas de hormônios anabolizantes, o que pode ocorrer mesmo em doses terapêuticas, principalmente nos casos em que a deficiência hormonal não foi diagnosticada apropriadamente, conforme as diretrizes e recomendações em vigor.
Deve sempre ser feito o cálculo da testosterona livre, através da dosagem da proteína ligadora de hormônios sexuais a SHBG e da dosagem de albumina sérica, para avaliação da fração ativa do hormônio, pois em alguns casos, como a obesidade, o valor total pode estar inapropriadamente baixo, porém em decorrência da redução da SHBG.
Indicações formais (doses fisiológicas)
Os EAA têm indicações clínicas legítimas e limitadas, incluindo:
- Hipogonadismo masculino (indicação principal)
- Caquexia associada a doenças crônicas: HIV/AIDS, câncer, queimaduras graves, insuficiência renal e hepática
- Anemias: associadas a leucemia ou insuficiência renal
- Osteoporose (densidade óssea)
- Angioedema hereditário
- Síndromes de falência medular
- Retardo constitucional do crescimento (em crianças, sob supervisão rigorosa)
- Reabilitação pós-fratura de quadril em idosos
Essas indicações utilizam doses fisiológicas ou de reposição, diferindo completamente do uso recreativo, no qual são empregadas doses frequentemente 10 a 100 vezes superiores às terapêuticas.
Seguimento e acompanhamento periódico de doses, exames laboratoriais e efeitos adversos.
Características do uso não-terapêutico:
- Doses suprafisiológicas: Muito superiores às doses terapêuticas
- Uso sem indicação médica: Principalmente para ganho muscular e melhoria estética
- Múltiplas substâncias simultaneamente: Prática comum chamada "stacking"
- Ciclos: Períodos alternados de uso e abstinência
Características das populações usuárias:
- Atletas recreacionais e amadores
- Frequentadores de academias e fisiculturistas
- Não mais limitado a atletas de elite
- Fenômeno que se tornou questão de saúde pública
Motivações para uso:
- Melhoria de performance física
- Preocupação com imagem corporal
- Busca por "corpo perfeito" em sociedade que perpetua esse ideal
- Pode estar associado a transtorno dismórfico corporal (TDC) e dismorfia muscular
A testosterona é o esteroide anabolizante mais utilizado - 96% dos usuários a incluem em seus ciclos. É considerada a base da maioria dos protocolos de abuso.
Altamente aromatizável, convertendo-se em estradiol, causa efeitos estrogênicos como ginecomastia e retenção hídrica. Forte supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.
Formulações mais comuns:
- Testosterona enantato (Delatestryl): Éster de ação prolongada, meia-vida ~4-5 dias
- Testosterona cipionato (Depo-Testosterone): Similar ao enantato
- Testosterona propionato (Testrex): Éster de ação curta, meia-vida ~2 dias
- Testosterona undecanoato (Nebido): Éster de ação muito prolongada
- Suspensão de testosterona (base aquosa): Ação imediata
Trenbolona: 52% dos usuários, segundo anabolizante mais comum.
- Trenbolona enantato e trenbolona acetato
- Originalmente desenvolvida para uso veterinário
- Não aromatiza, mas possui forte atividade progestogênica
- Potência anabólica ~5x maior que testosterona
- Efeitos colaterais neuropsiquiátricos proeminentes (agressividade, insônia, ansiedade)
- Efeitos cardiovasculares graves (hipertrofia ventricular, dislipidemia severa)
- Nefrotoxicidade documentada
TABELA DE ESTEROIDES ANABOLIZADES


A frequência de uso dos esteroides anabolizantes foi baseada em estudos observacionais e pode variar conforme país, época e população estudada.
55-80% dos usuários utilizam medicações para prevenir ou tratar efeitos colaterais durante os ciclos.
Substâncias Ancilares:
Anti-estrogênicos:
- Tamoxifeno: 23% dos usuários - modulador seletivo de receptor de estrogênio
- Anastrozol: 22% dos usuários - inibidor de aromatase
- Usados para prevenir ginecomastia e retenção hídrica
Gonadotrofina coriônica humana (hCG): 26% dos usuários
- Usada durante ou após ciclos para prevenir atrofia testicular
- Estimula produção endógena de testosterona
Terapia pós-ciclo (PCT): 80% realizam
- Duração mediana: 4 semanas (1-8 semanas)
- Mediana de 2 agentes (1-4)
- Objetivo: restaurar eixo HPG
Outros PIEDs:
- Hormônio do crescimento (GH): 21% dos usuários
- Clembuterol: 19% dos usuários - β2-agonista, usado para "queima de gordura"
- Insulina
- Hormônios tireoidianos
EPIDEMIOLOGIA
O uso ilícito dos anabolizantes esteroides androgênicos representa um problema de saúde pública, com estimativas de 2-3% da população masculina europeia e americana tendo usado EAA pelo menos uma vez.
Dados de grandes estudos nacionais americanos indicam:
Monitoring the Future (MTF) - 2018:
- Uso ao longo da vida: 1,1% (8ª série), 1,2% (10ª série), 1,6% (12ª série)
- Pico histórico: 3-4% entre 2000-2002
- Redução de aproximadamente 50% desde o pico
Youth Risk Behavior Survey (YRBS) - 2017:
- Prevalência geral: 2,9% (uso ao longo da vida)
- Pico histórico: 5% em 2001
- Importante: há preocupação de que o termo "esteroides" seja vago e possa ser confundido com corticosteroides ou suplementos, levando a superestimação
Estimativas populacionais gerais: Aproximadamente 1 em cada 8 usuários de anabolizantes inicia o uso antes dos 18 anos
Homens reportam prevalências consistentemente maiores que mulheres (~1,6%), embora a prevalência em mulheres esteja aumentando.
Orientação Sexual:
Minorias sexuais apresentam disparidades alarmantes no uso de anabolizantes:
- Meninos negros de minorias sexuais: ~25%
- Meninos hispânicos de minorias sexuais: ~20%
- Meninos brancos de minorias sexuais: ~9%
- Meninos heterossexuais: taxas significativamente menores
Essas disparidades são desproporcionalmente maiores em minorias sexuais negras e hispânicas.
Perfil dos Usuários Jovens
Motivação principal: A maioria dos usuários não são atletas competitivos. A dismorfia muscular ("megarexia") é o principal fator de risco, indicando que o uso visa primariamente aparência muscular, não performance atlética.
- Indivíduos recreacionalmente ativos (15-24 anos) têm maior probabilidade de usar anabolizantes que atletas em esportes organizados
- Frequentadores de academias: 3,5-80% (variação ampla)
- Atletas de elite: 9-67%
- Maior prevalência: halterofilistas, powerlifters e fisiculturistas (33,3-79,5%)
Fatores de risco associados:
- Atividades relacionadas a fitness
- Preocupações com peso (percepção de estar muito abaixo ou acima do peso)
- Preferência sexual e identidade de gênero
- Participação em esportes não organizados
- Problemas de imagem corporal
- Raiva aumentada
Comorbidades em Saúde Mental
Estudo populacional islandês com 10.259 jovens (idade média 17,3 anos) revelou associações alarmantes entre uso de anabolizantes e saúde mental:
Prevalência: 1,6% dos jovens islandeses
Problemas de saúde mental (comparado a não-usuários, p<0,05):
- Mais problemas de raiva
- Mais ansiedade
- Mais depressão
- Autoestima mais baixa
- 30% dos usuários tentaram suicídio vs 10% dos não-usuários (diferença altamente significativa)
- Maior probabilidade de usar medicamentos para problemas de saúde mental
- Maior probabilidade de abuso de outras substâncias
Limitações dos Dados Epidemiológicos
Subnotificação significativa: 56% dos usuários não revelariam o uso aos médicos.
Atletas podem ser relutantes em discutir uso mesmo com garantia de anonimato.
O USO ATUAL DOS ANABOLIZANTES tem sido considerado uma epidemia devido à disponibilidade através de internet/pedidos por correio e laboratórios clandestinos.
POTENCIAIS COMPLICAÇÕES DO USO DE ESTERÓIDES ANABOLIZANTES ANDROGÊNICOS
Relacionados ao tempo de uso, dose, tipo de esteroide anabolizante, apresentação e uso concomitantes com outras medicações como os PIEDs. Alguns efeitos podem ser reversíveis com a suspensão, porém outros são permanentes.

Endócrinas e metabólicas:

- Supressão do eixo hipotálamo-hipófise-testicular com hipogonadismo induzido (ASIH)
- Infertilidade por supressão da espermatogênese
- Síndrome metabólica: hipertensão, baixo HDL, triglicerídeos elevados, glicemia de jejum alterada
- Ginecomastia em homens, atrofia testicular
Hepáticas:
- Colestase, peliose hepática, adenomas
- Elevação de transaminases hepáticas
- Hepatotoxicidade (dose-dependente) - hepatocarcinoma?
Musculoesqueléticas:
- Fechamento prematuro das placas de crescimento epifisárias em adolescentes (comprometimento da estatura final)
- Rupturas musculares e tendinosas
Psiquiátricas e comportamentais:
- Alterações de humor, agressividade
- Déficits neurocognitivos
- Redução do volume cerebral
Infecciosas:
- Risco de HIV, hepatite B e C por compartilhamento de agulhas
- Abscessos musculares, sepse
COMPLICAÇÕES CARDIOVASCULARES
Complicações cardiovasculares com associação consistente na literatura
- Infarto agudo do miocárdio
- Cardiomiopatia
- Insuficiência cardíaca
- Arritmias, incluindo fibrilação atrial
- Eventos tromboembólicos venosos
- Morte súbita cardíaca
Alterações estruturais e funcionais
- Hipertrofia ventricular esquerda e aumento da massa ventricular
- Redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo
- Regurgitação valvar
- Redução da elasticidade arterial
- Hipertensão arterial


COMPLICAÇÕES RENAIS
Manifestações renais documentadas:
- Proteinúria: aumento da excreção proteica urinária, frequentemente associada à hiperfiltração glomerular e glomeruloesclerose segmentar e focal
- Dano estrutural renal: lesões histológicas documentadas- glomeruloesclerose segmentar e focal, fibrose intersticial e lesão tubular descritas em estudos histopatológicos
- Alterações de parâmetros laboratoriais: elevação de marcadores de disfunção renal
- Hipertensão: contribui para lesão renal progressiva
Os mecanismos mais bem estabelecidos incluem ativação do SRAA, aumento da endotelina, estresse oxidativo, inflamação e superexpressão do TGF-β.
MORTALIDADE A LONGO PRAZO COM USO DE ANABOLIZANTES
Coorte dinamarquesa demonstrou aumento de aproximadamente três vezes no risco de morte entre usuários de EAA
Seguimento de dois grupos de indivíduos, sendo um deles formado por homens barrados no doping e suspenso por 2 anos das atividades por uso de esteroides anabolizantes comparado com grupo controle não usuário de Jan 206 a Março de 2018. Análise de mortalidade:



Análise dos resultados mostrou um HR of 2.81 (95% CI, 1.98-3.99; P < .001) no número total de óbitos durante o seguimento, para os usuários de esteroides anabolizantes, quando comparado aos não usuários.
Outros estudos de seguimento demonstram mortalidade aumentada em usuários de EAA:
- Estudo dinamarquês com 11 anos de seguimento mostrou risco substancialmente elevado de eventos cardiovasculares fatais
- Estudo finlandês com powerlifters: mortalidade de 12,9% (idade média ao óbito: 43 anos) versus 3,1% em controles
- Principais causas de morte: infarto agudo do miocárdio e suicídio
MENSAGENS PRINCIPAIS
✔ Não existe dose recreativa comprovadamente segura.
✔ Os efeitos são dependentes da dose, duração e associação com outros PIEDs.
✔ Muitos efeitos são parcialmente reversíveis, porém alguns permanecem permanentes.
✔ O risco cardiovascular é hoje sustentado por estudos de coorte.
✔ A nefrotoxicidade ocorre por múltiplos mecanismos diretos e indiretos.
✔ O uso recreativo representa um importante problema de saúde pública.
O tratamento baseia-se, primordialmente, na cessação do uso dos esteroides anabolizantes, associada a medidas de reabilitação clínica, física, nutricional e psicológica.
Paralelamente, a difusão de informações de forma responsável, consciente e baseada em evidências é fundamental para a prevenção do uso indiscriminado e de suas complicações.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
